Pensando em alguma pauta interessante para o final de semana, para vir aqui e falar com vocês, decidi pedir ajuda ao ChatGPT sobre bons filmes que tangenciassem o universo da casa e da decoração. Depois de um longo briefing — ou melhor, prompt — ele me trouxe uma lista e, nela, o filme The Truman Show.

Confesso que, em princípio, não vi muita relação. Pensei que poderia ser um grande salto lógico falar de casa a partir desse filme. Mas, como toda boa arte, ele extrapola o espaço — e eu não poderia deixar de usar esse trocadilho com esse filmaço.

Sim, O Show de Truman é um filme já com alguns anos (1998) e bastante conhecido. Acredito que todos já tenham ouvido falar dele, ao menos como forma de analogia: “ah, isso parece o Show de Truman”. Eu mesma o conhecia muito mais assim do que pela obra em si.

Trata-se de um programa de TV, ao estilo Big Brother, em que o protagonista não sabe que vive em um ambiente artificial, totalmente controlado por uma equipe por trás das câmeras. Justamente por isso, aos olhos dos espectadores, ele é um personagem verdadeiro: não encena, mas vive.

Imagens: The Truman Show (1998), direção de Peter Weir.
Uso editorial para fins de crítica e análise cultural.

E talvez seja justamente aqui que o filme começa a nos ensinar algo importante sobre a vida — e, mais adiante, sobre a casa.

E aqui vai a primeira lição:

A VIDA AUTÊNTICA ATRAI.

Imagens: The Truman Show (1998), direção de Peter Weir.
Uso editorial para fins de crítica e análise cultural.

Tudo o que Truman faz é televisionado em tempo real. Todos os que convivem com ele — ou melhor, contracenam — agem de modo a mantê-lo dentro daquela ilusão. Tudo ali é perfeito: a casa é perfeita, os objetos são dispostos para aparecerem, quase como numa vitrine. A cidade é limpa, organizada, todos são felizes e parecem se importar uns com os outros.

Mas essa perfeição, tão bem ensaiada, começa a revelar suas fissuras.

E é aí que entra a segunda lição:

A VERDADE É UMA FORÇA ATÔMICA,

expansiva, que não pode ser contida em um espaço pequeno. Aos poucos, ela vai encontrando frestas para se revelar de diferentes maneiras ao nosso personagem, Truman.

A primeira — e mais importante — dessas frestas é o amor.

Imagens: The Truman Show (1998), direção de Peter Weir.
Uso editorial para fins de crítica e análise cultural.

Truman se apaixona por uma das atrizes, Sylvia, e é correspondido. Mas, como o preço do amor é a liberdade, o que ela mais deseja é tirá-lo daquela ilusão. Por isso, ela é eliminada do programa, com um suposto pai alegando sua loucura e anunciando que a família iria para as Ilhas Fiji. Desde então, a obsessão de Truman passa a ser chegar até lá.

Mas a verdade não se manifesta apenas nos grandes acontecimentos. Ela também se revela naquilo que guardamos.

AS MEMÓRIAS

Imagens: The Truman Show (1998), direção de Peter Weir.
Uso editorial para fins de crítica e análise cultural.

A única coisa que Truman conserva de Sylvia é um suéter. Todos os dias, ele compra revistas de moda e passa a buscar, nos olhos das modelos, aquele olhar que mais se aproxima do dela.

Os olhos são a janela da alma.

Além disso, ele mantém uma caixa no sótão, cheia de fotos e recordações da infância. Isso me pareceu extremamente simbólico: o sótão é aquele lugar mais íntimo e profundo da casa — quase como o coração — onde não precisamos fingir nada, onde guardamos as memórias que mais nos marcaram e onde, quase sempre, há também uma certa bagunça.

Em contraste, há uma cena em que, junto com sua mãe e sua esposa, Truman folheia um álbum de fotos posadas, perfeitas, que demonstram uma felicidade cuidadosamente controlada.

Imagens: The Truman Show (1998), direção de Peter Weir.
Uso editorial para fins de crítica e análise cultural.

É como se Truman fosse, pouco a pouco, se afastando daquilo que lhe é mostrado para buscar aquilo que carrega dentro.

Ele busca aquela inquietação que todo ser humano tem pelo infinito e que só pode ser saciada pela Verdade. Por isso, ele faz uma travessia. Enfrenta o medo que o paralisa. Essa jornada é aquela que todos nós podemos — e devemos — seguir, dentro da barca Santa Maria (nome do barco que Truman usa no mar).
Eu amei essa referência.

Mas, afinal, onde a casa entra nisso tudo?

Ela entra justamente como expressão desse ambiente artificial.

O filme nos mostra um bairro limpo, casas bem cuidadas, tudo previsível — algo que se nota claramente na repetição das cenas. A casa, que aparenta oferecer segurança, é, na verdade, uma casa que observa, que controla, que não permite falhas.

Não há abertura para o incompleto e o imperfeito. Tudo está organizado para ser visto e, em última instância, consumido. Os objetos domésticos — móveis, utensílios, eletrodomésticos — não existem para servir Truman, mas para sustentar uma narrativa para quem está do outro lado. Não há espaço para a marca do tempo, para o copo fora do lugar. A vida ali vira uma espécie de encenação permanente.

A cidade de Seahaven, descrita como “o maior estúdio já construído no mundo”, revela uma padronização quase asséptica, sem espaço para a autenticidade. E vale destacar: o problema não está na ordem em si, mas na negação do mistério, na eliminação do risco, na ordem sem verdade e, por fim, na casa sem alma.

Nossas casas devem servir à nossa vida interior. A intimidade precisa entrar como um valor arquitetônico. É ali que somos de verdade, mesmo quando ninguém nos olha.

Talvez seja por isso que esse filme fale tanto ao nosso tempo, marcado por excesso de exposição e pouca interioridade.

Imagens: The Truman Show (1998), direção de Peter Weir.
Uso editorial para fins de crítica e análise cultural.

Para aqueles que se animarem a vê-lo, recomendo prestar especial atenção na última cena e na simbologia da porta. Ela representa a saída da estrutura artificial, da segurança controlada a todo custo, da vida conduzida por outros. A porta simboliza aquilo que toda casa verdadeira deve permitir: a liberdade.

Uma boa casa não aprisiona, mas prepara o homem para o mundo.

Até o próximo post!

Paula Sá