Talvez esta nota esteja chegando um pouco tarde. Escrever esta pequena reflexão não estava no script, mas ela surgiu enquanto eu passava pelos ambientes da minha casa, pensando em como eles poderiam melhorar para acolher a minha família. O Natal já passou e acredito que muitas casas estejam, agora, imersas nessa dinâmica — que é, no fundo, uma arte.

Digo desde já que a ideia aqui não é ser um manual, mas registrar um pensamento que foi se formando enquanto eu caminhava pela casa e pensava naqueles que estariam ali. Uma reflexão silenciosa, quase doméstica.

Será que um cesto aqui pode ajudar?

Entre um quarto e outro, e em meio a pequenos ajustes, fui percebendo que uma casa preparada para acolher vai se revelando aos poucos, sem necessidade de palavras. Ela não organiza a experiência de quem entra — o que pode ser uma tentação —, mas favorece o acolhimento, a brincadeira das crianças, a conversa na sala, o momento de silêncio, e a circulação natural entre essas esferas.

Essa percepção me levou a uma leitura que fiz durante o tempo do Advento. Ao falar de Nossa Senhora visitando sua prima, Santa Isabel, o autor dizia que o amor se antecipa. E isso ficou ressoando em mim. Pensei que muitos pequenos desconfortos poderiam ser evitados não por controle ou excesso de previsões, mas por atenção: à procura por apoio, ao deslocamento dentro do espaço, ao ritmo de cada um — tão diferente entre as idades. Quando essas coisas são consideradas, a casa deixa de exigir explicações. Tudo parece estar onde deveria estar, sem esforço.

Nesse sentido, a disposição dos objetos, do mobiliário e dos pequenos apoios funciona quase como uma linguagem silenciosa, dizendo: “estou aqui para te ajudar”. Quando isso não acontece, algo parece deslocado. É aí que a ordem — que não é sinônimo de rigidez — cumpre o seu papel ao abrir espaço para a liberdade. Ela amplia possibilidades. Cria um chão comum onde a convivência pode acontecer sem cerimônia, sem constrangimento, sem a sensação de estar ocupando um espaço alheio. É uma ordem que não vigia e não interrompe.

Talvez preparar a casa seja isso: aceitar que ela não precisa se mostrar o tempo todo. Que o design pode agir quase em silêncio, sustentando encontros, pausas e movimentos sem chamar atenção para si. Quando isso acontece, a casa não se torna protagonista — e, curiosamente, é aí que ela cumpre melhor o seu papel.

Leitura que ecoa este pensamento:
As Pequenas Virtudes do Lar

Até a próxima Nota.

 

Paula Sá